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SUA ESPECIALIDADE

 

João Serralvo

Especializar-se permite um avanço significativo no conhecimento e na prática das atividades profissionais. Com os atuais progressos científicos e tecnológicos, já não é possível dominar todos os desdobramentos de qualquer carreira. Concentrando o interesse num setor especial de sua competência, o especialista se capacita para dar aos seus clientes melhor atendimento, com mais segurança e melhor resultado. A especialização se reconhece e se aceita normalmente na medicina, por exemplo. Ninguém vai a um  oftalmologista para resolver um problema gástrico. Não faz sentido. Contudo, o mesmo não se dá em algumas outras atividades, e o profissional que rejeita um trabalho por estar fora de sua especialidade, pode dar a impressão de ser deficiente em suas funções. Dizer ao cliente "isso não é comigo", pode parecer uma deficiência técnica depreciadora.

 

Aconteceu com o jovem poliglota Miguel (nome fictício), um desses felizardos que nasceram privilegiados com talento natural para idiomas. Ele trabalha como tradutor, sendo muito prestigiado por editores e autores que sempre o procuravam com grande preferência. Traduziu importantes obras do alemão, do francês e do italiano. Do inglês tinha feito Shelley, Keats, Tennyson, e outros autores difíceis. Entretanto recusou "The Good Society", de Galbraith, traduzido posteriormente, à excelência, por Ivo Korytowski com o título de "A Sociedade Justa". Miguel explicou o motivo de sua recusa ao editor com a maior sinceridade:

 

"- Não vou encarar esse trabalho. Meus assuntos são poesia, drama, filosofia, religião, especialmente os antigos. Mas Galbraith é economia, política, sociedade, o que não faz meu gênero. Não gosto disso e não vou encarar esse trabalho. Arranje outro".

 

Sua rejeição deixou-lhe a impressão de insuficiência profissional. Ele perdeu prestígio e a editora não o procurou mais. O que ele poderia ter feito, para manter sua fama apesar disso?

 

Veja o exemplo do Dr. Plínio, advogado criminalista renomado. Ele recebeu, em seu escritório,  um amigo empresário processado pela Receita Federal por sonegação do imposto de renda, o qual pediu sua ajuda. Ele examinou rapidamente o caso. Tratava-se de uma glosa aplicada pelos auditores fiscais sobre a conceituação e os registros contábeis de certas operações de lucro potencial de câmbio. A multa era muito alta, e a defesa lhe renderia bons honorários. Mas estava totalmente fora de sua prática habitual; demandaria muito estudo, pesquisas demoradas, e ele não tinha nenhum assessor habilitado no assunto. Então disse ao seu cliente:

 

"- O prazo para sua defesa é curto, e estamos sobrecarregados no momento, com algumas causas urgentes. Mas não há problema. Você não vai ficar sem assistência. Vou encaminhá-lo e recomendar o seu caso a um colega muito competente. Ele o assistirá tão bem quanto eu, e estou certo de que você se livrará dessa multa".

 

Deu ao empresário o endereço do colega, o melhor especialista em direito tributário, que era também contador. Ligou pra ele e o preveniu, passando-lhe as melhores referências sobre o cliente, a quem prometeu ajudar no acompanhamento do processo se necessário. Desculpou-se apenas pela sua falta de tempo, e evitou deixar aquela desagradável impressão de incompetência!

 

O cliente saiu satisfeito e Dr. Plínio manteve sua boa reputação.

 

Em qualquer profissão liberal cujos desdobramentos não estão bastante definidos para o público, esses casos podem ser freqüentes.

 

Na engenharia, por exemplo, o cliente pode pedir uma planta para construção residencial a um projetista de pontes e estradas.

 

Não se pode dominar todas as especialidades, mas isso não deve confundir-se com falta de conhecimento. Todo profissional precisa manter uma boa reputação. Esta se constrói duramente, com estudo e trabalho sério, ao longo de muitos anos de exercício profissional. Portanto, se você ainda está na ativa, desenvolva um relacionamento constante com os colegas que tem especialidades diferentes da sua, e pratique com eles um bom intercâmbio de clientes que cada um não puder atender. A cooperação sempre será proveitosa para todos.

 

Não chame a atenção para suas aparentes deficiências, pois elas não existem, não são reais. Não é necessário, e pode ser muito inconveniente.

 

O reconhecimento de seu talento e de seus conhecimentos é a base para sua credibilidade e a confiança do cliente, e você precisa disso. Não as negligencie, em favor de uma aparente sinceridade que pode lhe ser prejudicial. Não vale a pena!

 

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(Valinhos, 18/7/2010)